
Por: Miguel Augusto (Migs)
Data: 07/01/2010
O imaginário do jovem. Alegoria da imaginação e conforto da solidão. Chegou a hora de mais uma despedida entre a realidade e a idealização.
- Acho que você realmente está tomando uma decisão pensada, desta vez. – Disse o incrédulo anjo.
- Me desculpe, mas não posso mais esperar de forma tão ansiosa.
- Também peço desculpas. Já atendi por muitos nomes, muitos rostos. Uns por tempo demais, outros por tão pouco...
- Tu és nada mais que a escapatória do romântico. O alento de que uma hora você deixaria de ser esta entidade metafísica para sempre, se tornando carne e osso.
- Eu fui de carne e osso, da última vez por quase quatro anos e você me amou intensamente.
- Por isso estou tomando esta decisão, meu anjo. Você já perdeu seu último rosto, devido à razões que vão além da minha ainda imatura capacidade de compreensão. Não posso mais tocá-la, beijá-la, e a espera até que você materialize-se em um novo rosto é angustiante demais. Simplesmente não posso prender-me a este conceito que você é.
- Entendo perfeitamente, não é saudável. Mas lhe prometo que está próxima a vez que eu terei um rosto, uma história, um coração novamente, e o manterei para sempre. Será como sempre sonhou.
- Tenho certeza que sim. A fé ainda não morreu, mas não posso mais aguardá-la. Torço para o nosso reencontro, mas até lá, viverei como se deve ser: sem expectativas, cobranças, ansiedade. Viverei apenas o momento, como já o fiz antes de criá-la.
- Eu o conforto? Sua fé o ajuda a seguir em frente?
- Posso dizer que sim. Como uma religião, o conceito do “amor” que me bombardeou durante toda a vida, através de músicas, filmes e livros. As estatísticas podem dizer o contrário, assim como as constantes desilusões, mas essa busca implacável já está afixada dentro de mim e não posso desprender-me dela tão fácil.
- Por qual razão?
- Porque, como você bem disse, ela me ajuda a seguir em frente. Todos desejamos alguém para reconfortar nossos dias e que caminhe lado a lado de nós em uma trilha de tijolos amarelos.
- Não tens medo de que esteja em busca de algo que não exista?
- Mais medo tenho em saber que não existe. A ignorância faz parte desta jornada.
- Esta ignorância é a fonte da minha vida, dentro de sua mente. Não tenhas medo de se machucar, de dar-me um rosto, pois é tudo o que eu preciso para fazê-lo feliz. Esse é o meu desejo.
- Logo, é o meu também.
- Que esta separação o ajude a abrir seus olhos, como deseja. Até breve.
- Muito breve, espero.
O anjo sem rosto zarpou para nunca mais retornar, pelo menos não como uma alegoria de sua romântica imaginação, mas como um sentimento. E "felicidade" era seu nome.




Nenhum comentário:
Postar um comentário